quinta-feira, 11 de agosto de 2011

O Nascimento de uma Fada


O que vos vou contar, não é segredo…
É apenas mais uma história, de um mundo de coisas, que são e não são… Que existem sem existir, são coisas do ser e não do ter. Pois não se pode ter o mundo, mas podemos ser parte dele, ser parte da sua Alma.
Fechamos os olhos e abre-se um mundo que existe ao nosso lado e só vemos realmente quando esquecemos tudo, até nós mesmo.
Se o procurares acordado, não o vais encontrar, se te sentir ele irá encontrar-te, depois de lhe pertenceres nada mais será como antes. Mais uma vez vou contar-vos uma história desse mundo.
No tempo em que os rios vão cheios, e tudo fervilha de Vida. As flores, abrem-se procurando a energia do Sol. Depois de uma noite de orvalhada, a frescura da manhã entra pelo pulmões… embriagando-me a Alma, fazendo-me sentir parte daquilo tudo. No Silêncio das coisas dos Homens e na música das coisas de Deus, caminho, como sempre por sendeiros mágicos… Conversando em pensamento, com tudo o que se cruza comigo.
Procurando indícios nas coisas, das coisas, que apenas se sentem e não se vêem.
Encontro uma lagartixa por ali, mesmo junto ao riacho, que me fita nos olhos atentamente.
- Apressa-te! Segue o riacho, junto as pedras, passarás por uma gruta, perdida no tempo… a sua porta está aberta para todos os que sonham, fechada para todos os outros… Está quase…
Mal acabou de dizer isso, correu para dentro de um pequeno buraco.
Calcando as pedras do riacho, seguindo o tapete de musgo, o cheiro da terra molhada, dava-me forças… caminhei durante algum tempo… não resisti e deitei-me naquele musgo, sorrindo por nada, apenas pensava que tolo sou… como posso estar tão bem… apenas por estar aqui deitado, olhando para o brilho do Sol, que espreita entre as ramas das árvores.
- Então… por que esperas? – Novamente uma voz, desta vez, não vi quem falava. Voltei ao caminho.
Encontrei um conjunto de pedras enormes. Impossível passar, pensei eu.
Mas ouvi um barulho abafado… de água… pensei, a gruta deve ter uma entrada. Dei a volta às pedras encontrando, no meio de uma vegetação frondosa, uma pequena abertura para dentro. O meu coração quase parou, entrei… deixei-me escorregar para o seu interior.
Um Palácio, a abertura por onde entrei estava atrás de mim, novamente escondida entre a folhagem. Do meu lado direito um estreito corredor que dá directamente ao rio, e uma outra saída para o outro lado. Estava sem conseguir articular um pensamento… incapaz de mexer um único músculo, o som do ribeiro enchia a pequena sala… Uma voz do outro lado diz: - Está quase, vem.
Ao aproximar-me da outra entrada da gruta, a Luz parecia invadir tudo. Uma luz branca, de um esplendor fora do normal, fria… pura…
Encontrei do outro lado uma pequena clareira, ladeada pelo ribeiro cristalino, e por paredes de rochas plenas de musgo e vegetação. Mas o mágico eram as centenas de borboletas que dançavam em círculo à minha volta, como se de uma coreografia se trata-se. A luz nas suas asas, faziam cintilar tudo, como se de um caleidoscópio se tratasse. Não pensei em nada, caminhava lentamente por aquele tapete de musgo, enfeitado com mil flores silvestres, com uma lufada de ar daquele doce dançar.
Ao chegar ao centro, estavam pousadas no que parecia um pequeno monte de folhas, um tapete de asas brancas, brancas como a neve. Imóveis pareciam estar à espera, inabaláveis esperavam, eu aproximei-me cuidadosamente, até quase lhes tocar.
E mesmo no momento que… explodem em movimento, eu dou dois passos atrás, eram tantas que deixei de ver… por alguns instantes olhava para todo o lado e só via branco, tantas eram as borboletas, que cegaram o meu olhar… desaparecendo ribeiro acima.
Então reparei numa pequena criatura, despida, sentada e enrolada sobre si mesma. Eu continuei imóvel, observando apenas. Uma fada de luz branca, veio do rio tocou as suas costas e quatro asas de cor branca imaculada, surgiram lentamente como se de folhas se tratassem.
Pouco depois a Lua desceu, e teceu no na cor mais preta das noites o mais lindo dos bordados, num negro tão negro, da cor da noite mais escura.
A forma final, lembrava-me uma assas com forma de borboleta, mas com um rendilhar de outros tempos.
Depois o silêncio instalou-se… tudo se calou, tudo sossegou, até o vento. O ribeiro parecia descer nas pontas dos pés.
Eu estava!!!… não tinha palavras para explicar!!!… Apenas fitava toda aquela beleza, e não conseguia sequer pensar.
- Porque esperas? Toca-lhe… vá toca-lhe!!! Insistiu a voz, que me tinha acompanhado na caminhada.
Eu a assim fiz, retomei o andar até aquela criatura, e lentamente ajoelhei-me a seu lado, e coloquei meus lábios na sua fronte. Não sei porquê mas algo me dizia que era isso que faltava.
O calor dos meus lábios acenderam o seu coração, pois poucos segundos depois deste gesto, a criatura abria o seu rosto e corpo, para mim, e o seu coração brilhava. Então esticou suas asas e dançou, sem dizer apenas uma palavra, voou em meu redor, espalhando luz por onde estava, e todas as criaturas cantavam à nossa volta, tudo brilhava… o ribeiro cantava… eu só conseguia pensar fantástico, mágico, estou novamente a sonhar acordado.
Ela não falava, apenas me olhava, algumas fadas pequenas trouxeram duas flores cheias de um liquido doce, ela apontou para mim e fez gesto para beber.
Enquanto bebia, o seu olhar era de tal forma cativante que me fazia esquecer tudo, tudo mesmo… não sabia se sonhava, ou estava acordado… tudo estava confuso.
E voltou a dançar saltitando de pedra em pedra, escondendo-se dentro da gruta, para depois surgir no ribeiro sorrindo… brincando… sem uma peça de roupa e no entanto sem qualquer sentido de vergonha… Mas porque teria que ter vergonha? Que parvoíce…
Passou o tempo, e de repente esvaneceu-se no ar.
E tudo voltou ao normal, voltei pelo mesmo caminho, tudo estava igual… e no caminho pensava… que foi tudo aquilo.
O nascimento de uma fada borboleta, de asas brancas do mais puro branco, bordadas pela lua sua mãe no mais negro dos tons da noite.
Continuo a não saber se foi um sonho, se foi real… Mas gosto de pensar… que é possível a magia… que as fadas existe…
Voltei ao mundo dos barulhos dos homens, sempre acompanhado com o meu livro, onde vou lavrando a minha vida e o meu pensar, para que a memória um dia não me falhe… e o mundo da gente grande esqueça que a magia existe mesmo, está mesmo ao nosso lado.
E só o coração de uma criança a pode ver.
Logo alimentem o vosso coração de criança e deixem a magia entrar.

António Cavaco